por John Wimber
Quero começar este artigo pedindo, antes de tudo, desculpas a vocês, leitores. Já se passou mais de um ano desde o último artigo e, por um lado, sinto-me em falta. Mas, por outro lado, tenho tentado! Este artigo é o mais difícil que me lembro de ter escrito. Se eu não acreditasse que este tema é tão importante para a saúde contínua do movimento Vineyard, eu já o teria abandonado há muito tempo.
Também quero agradecer aos muitos leitores que contribuíram com sugestões para este artigo. São questões muito complexas. Estou tentando lidar com um corpo de ensino muito diverso de uma forma que seja justa com os diferentes pontos de vista, mas também suficientemente específica para ser útil aos leitores. Por isso, busquei a ajuda de um grupo diverso de leitores para afiar meu pensamento, e agradeço a cada um de vocês.
A Vineyard é um movimento de plantação de igrejas que busca ativamente discernir o que Deus está fazendo atualmente onde quer que encontremos Sua atuação no Corpo de Cristo. Essa filosofia de ministério expõe as igrejas Vineyard a muitas crenças diferentes provenientes de diversos fluxos de pensamento dentro da Igreja.
Por um lado, isso nos mantém atentos, porque somos continuamente levados de volta à Palavra de Deus, conforme interpretada pelo Espírito de Deus, e à história da Igreja, para perguntar: “Isso é consistente com a Palavra escrita de Deus e com sua expressão histórica ao longo dos séculos?” Por outro lado, essa abertura pode levar a um afastamento temporário da âncora de nossas crenças e práticas históricas, e até a uma distorção de curto prazo enquanto um “sopro novo do Espírito” é examinado. Quero tratar de parte disso neste artigo.
Também é muito importante para mim como vemos a Igreja como um todo e como reagimos a ela, quer a igreja esteja em maré alta ou em baixa. Quero amar o que Jesus ama, e Ele ama toda a igreja… sempre.
Creio que alguns dos problemas que vou abordar neste artigo surgiram por causa de preocupações legítimas de alguns líderes em relação ao que eles consideram estruturas eclesiásticas não funcionais. Eu também compartilho dessas preocupações, mas também creio que Deus tem sempre um plano para renovar e reavivar Sua Igreja.
Acrescentando ainda mais confusão, nas últimas duas décadas vários termos bíblicos válidos passaram a significar algo diferente nos ouvidos dos ouvintes do que o seu uso bíblico e histórico original. Não creio que a alteração do significado desses termos, nem a confusão resultante disso, tenha sido intencional, mas, ainda assim, trata-se de um problema que precisa ser enfrentado em um movimento em crescimento como a Vineyard.
Tendo esses fatores em mente, quero primeiro examinar quatro crenças comumente sustentadas por alguns dentro da interação carismática e pentecostal com a Vineyard. Em seguida, quero apresentar cinco recomendações para ministérios que reafirmem e esclareçam nossas raízes Vineyard, tanto bíblica quanto historicamente, para que possamos continuar crescendo rumo ao futuro.
Parte I
Quatro Crenças Comumente Sustentadas
Essas ideias são mantidas por aquilo que pentecostais mais tradicionais geralmente chamariam de o pentecostalismo radical e, pelo que sei, não representam a igreja pentecostal clássica em geral.
Ao ensinar sobre este tema controverso e diverso, entendo que corro o risco de parecer negativo para alguns leitores da Vineyard, embora eu não esteja tentando ser nem polêmico nem argumentativo ao escrever. Por favor, leiam a seção a seguir pelos meus olhos — os olhos de um subpastor que deseja proteger e redirecionar — e não como um crítico à procura de argumentos que possam ser usados para ferir ou machucar outros.
1. Restaurar a Igreja do Novo Testamento
Alguns líderes cristãos dizem que a Igreja moderna precisa ser trazida de volta a uma experiência primitiva do Novo Testamento. Não rejeito isso completamente. Se, porém, restaurar a Igreja significar substituir a Igreja, então rejeito essa ideia.
Mas se restaurar significar renovar toda a Igreja, então eu a aceito.
Uma suposição fundamental — e geralmente não expressa — da visão desses mesmos líderes é a ideia de que agora somos os receptores únicos da obra dos últimos dias do Espírito e que o Espírito Santo tirou uma “licença” da igreja durante os últimos dezenove séculos. Essa visão, na minha opinião, deturpa a história da Igreja. A Igreja, sob a administração do Espírito, continuou a crescer e amadurecer durante os últimos dezenove séculos, ainda que por meio de altos e baixos. Não vejo nenhum grande parêntese em que o Espírito Santo estivesse ausente da Igreja quando leio a história da Igreja.
É possível perceber os fundamentos anti-históricos dessa visão pela maneira como ela idealiza a igreja primitiva retratada nas páginas do Novo Testamento. Não é preciso cavar muito fundo nas Escrituras para ver que o solo no qual a Igreja primitiva foi plantada estava longe de ser ideal. Heresias incipientes estavam em ebulição (Colossenses), o preconceito era generalizado (Tiago), a igreja da Galácia lutava com uma forma virulenta de legalismo, e havia divisões sérias entre os crentes em Corinto, além da tolerância de um pecado grave — o incesto (1 Coríntios) — apenas para citar alguns exemplos.
Meu ponto é que a igreja do Novo Testamento (NT) era uma mistura; era gloriosa, mas também carregada de problemas. Creio que é ingênuo assumir que o Cristianismo da Igreja primitiva foi o ponto mais alto da história da igreja e que tudo deu errado depois disso. Estou ciente de que todos esses problemas — e mais — também são evidentes na igreja de hoje. Apenas estou dizendo que o fato de esses problemas existirem hoje não exige que rejeitemos a Igreja e a rotulemos com algum termo pejorativo.
Esses mesmos líderes também assumem que a liderança da Igreja atual é autocentrada. Eles parecem acreditar que a Igreja perdeu o contato com a realidade da importância do Evangelho e passou a se concentrar na manutenção da comunidade existente. Nessa visão bastante pejorativa, a Igreja existente é frequentemente caracterizada como “morta” ou como “odres velhos”, e a igreja supostamente “viva” é exortada a “sair do meio deles”. Mais uma vez, esse pensamento se baseia em um julgamento de que a Igreja não pode ser renovada; ela precisa ser substituída, e o modelo de mudança é encontrado principalmente olhando para trás, e não para frente.
Para mim, essas ideias entram em conflito com vários valores bíblicos. Primeiro, a Bíblia ressalta a importância de reconhecer e aceitar a liderança, submeter-se a ela e, assim, desenvolver vitalidade espiritual juntos em comunhão dinâmica.
Há, em segundo lugar, o perigo de que aqueles que sustentam essa posição acabem, sem intenção, imunizando-se contra o exercício do saudável hábito da autocrítica e da confissão de pecados. A Igreja, segundo essa postura, precisa ser restaurada — mas e aqueles que fazem essa afirmação? Estariam eles acima do próprio chamado ao arrependimento e à restauração que fazem à Igreja? Infelizmente, alguns podem comunicar isso inadvertidamente.
A justificativa que alguns dão para tentar assumir liderança nessa área é expressa como “Deus me disse” ou “tive uma visitação”, ou alguma outra prerrogativa divina. Pelo que sei, nenhum deles se arrependeu de suas próprias atividades no que diz respeito a quaisquer abusos que agora estão apontando na igreja em geral. No caso de Israel nos dias de Esdras, o arrependimento pessoal e corporativo levou à renovação (Esdras 9:1–3).
Além disso, um terceiro valor bíblico que essas ideias violam é que os crentes não devem ter atitudes julgadoras. Em parte, essas atitudes parecem fluir de uma falta de paciência e tolerância com a Igreja, porque não reconhecem que a Igreja, assim como seus predecessores — os israelitas do Antigo Testamento —, tem uma propensão a se afastar da obediência íntima a Deus e caminhar para um lugar onde poderia, e frequentemente fazia, seguir falsos deuses.
Em contraste com essas visões, parece-me que odres velhos podem ser renovados pela água (às vezes uma imagem representativa da Palavra de Deus) e pelo óleo (uma imagem associada ao Espírito). Creio que isso pode ser observado em dois âmbitos: o natural e o espiritual.
Vi isso no âmbito natural. Meu avô costumava negociar cavalos. Sempre que fechava negócio por um cavalo, ele tinha o hábito curioso de pedir que o arreio fosse incluído na troca. Esse pedido sempre provocava olhares estranhos, porque o tempo e o suor normalmente haviam envelhecido bastante o couro. Mas o vendedor aceitava. Ele não queria parecer tolo atrasando um negócio por causa de um pedaço de couro velho que aparentemente não valia muito. Mas meu avô via valor onde outros não viam.
Depois de levar o arreio para casa, meu avô ia até a varanda dos fundos da fazenda e o deixava de molho por alguns dias em um balde de salmoura que mantinha ali. Depois que a salmoura amolecia o couro velho, ele o retirava, secava e começava lentamente a esfregar óleo de linhaça no couro. Lembro-me de vê-lo sentado em sua cadeira favorita na varanda, depois do jantar, trabalhando com o óleo naqueles arreios velhos, perguntando-me por que ele se importava tanto com um couro velho e aparentemente inútil.
Não demorava muito para eu entender. Depois de alguns dias aplicando o óleo de linhaça, aquele couro velho voltava à vida e às vezes parecia novo outra vez. Então meu avô recolocava o freio e pendurava o arreio na garagem para ser usado ou vendido. Meu avô não fazia isso pelo dinheiro; ele simplesmente gostava de cooperar com a salmoura e o óleo na renovação de algo que outros consideravam inútil.
Eu também gosto de cooperar com a água (o ensino da Palavra) e com o óleo (uma nova visitação do Espírito) para ver a renovação de “odres velhos” — algo que outros podem considerar inútil, mas que eu valorizo muito. Essa renovação por meio da Palavra e do Espírito é, para mim, prova da obra contínua do Espírito na Igreja, e ela continuará até a segunda vinda de Jesus. A Igreja ainda é o instrumento central que Deus usa para o avanço do seu reino.
É por isso que acredito que a noção de uma igreja “morta” está incorreta. Se é igreja, está viva porque pertence a Cristo e está em Cristo. A desobediência, o incentivo à falsa doutrina, a falta de perdão, a ira contra Deus e contra os homens — tudo isso contribui para que ela se torne fraca e enferma. Mas julgar uma igreja como morta porque ela está em um momento de baixa espiritual parece-me algo que beira o pecado. Jesus reservou para si mesmo o direito de julgar a Igreja (ver Apocalipse 2 e 3).
Certamente, a Igreja pode precisar de um reavivamento; pode precisar de uma obra do Espírito que produza nova vida. Isso não surpreende você, não é? Não deveria.
O Antigo Testamento está repleto desse ciclo de fluxo e refluxo. Israel se afastava de Deus e, então, era atraído de volta repetidas vezes. Também reconhecemos isso na história da Igreja, quando Deus levantou homens e mulheres corajosos que conduziram seus respectivos movimentos para fora de períodos de escuridão espiritual e de volta a Deus.
Como resultado, a Igreja foi levada a um novo lugar por meio de uma visitação do Espírito Santo. Avivamentos trazem nova vida em tempos de maré baixa na Igreja, mas não desista da Igreja como se ela estivesse morta.
2. Reestabelecendo o Ministério Quíntuplo
Uma crença comum dentro dessa ideologia é a suposição da necessidade de reestabelecer o chamado ministério quíntuplo. Quando “Apóstolos” e “Profetas” dos dias atuais assumirem seu lugar legítimo, novas formas e novos odres serão estabelecidos, segundo essas ideias. A Igreja então será levada a um nível mais elevado de prestação de contas, intimidade e espiritualidade do que sua predecessora. Nesse novo estado de empoderamento, a Igreja será capaz de pregar, orar, profetizar, curar e fazer essas coisas de forma tão eficaz que precipitará a segunda vinda de Jesus.
Esse mal-entendido se baseia, em parte, no que considero uma visão incorreta dos “líderes capacitadores” dados à igreja em Efésios 4:11 (veja adiante o meu entendimento desses cinco ministérios). Creio que esses cinco ministérios existem na Igreja desde o primeiro século. Ao estudarmos a história da igreja, houve períodos em que eles foram mais ou menos evidentes, mas nunca estiveram indisponíveis.
Esses cinco ministérios não precisam ser recuperados hoje, mas exercidos sob o poder e a direção do Espírito de Deus, com humildade e com amor e respeito por todo o Corpo de Cristo.
Subjacente a essa suposição está novamente a ideia de que, de alguma forma, a Igreja existente não é espiritual e não está atenta a Deus. Contudo, na minha opinião, se é Igreja, Deus está nela. E, se não é Igreja, não será renovada de qualquer maneira.
Substituir odres velhos por novos desloca estruturas e líderes e, assim, ameaça igrejas existentes e, de fato, as fecha para reforçar iniciativas de renovação. Mas Cristo não é o Cabeça Supremo da Igreja? Ele não é soberano sobre a igreja? Ele é perfeitamente capaz de remover e substituir líderes dentro dos sistemas existentes. Ao dizer isso, não estou afirmando que aprovo ou que esteja comprometido com todos os sistemas existentes de governo eclesiástico. Estou apenas dizendo que, como líder da Vineyard, não sinto um chamado para corrigir outros quanto à maneira como decidem conduzir os assuntos no Corpo de Cristo.
Creio que a Igreja de Jesus Cristo pode ser e está sendo renovada nesta era e neste tempo. Isso, porém, não me leva à conclusão de que essa renovação tenha sido concedida porque a Igreja existente seja tão pecaminosa que suas estruturas e líderes precisem ser descartados.
O leitor pode perguntar: o que você acha que significa Jesus “remover o seu candelabro” em Apocalipse 2:5? Pode uma igreja chegar a um ponto em que Jesus diga: “Esta já não é mais a minha Igreja, e eu a removo”? Minha resposta é: “Não sei!”. Já que isso é assunto dele, esperemos para ver o que Ele fará. Jesus, afinal, é aquele que tem “toda autoridade” (Mateus 28:18).
3. Aguardando por uma “Coisa Nova”
A terceira grande questão que ouço repetidamente é o anúncio profético de que algo “novo” está chegando. Profecias dessa natureza podem afetar negativamente quem as ouve. Elas podem despertar um desejo por um tipo gnóstico de conhecimento secreto, de modo que o crente finalmente possa entrar em algum círculo interno ou estar na linha de frente de um novo mover de Deus. Essa “coisa nova” ou ideia geralmente é sustentada pela lógica de que, com essa nova informação, sabedoria e poder, o grupo estará mais bem preparado para liderar, nutrir e cuidar da causa de Cristo. Então, eles estariam em uma posição melhor do que seus predecessores para apressar a segunda vinda de Cristo. Há uma tendência inerente de esperar, em vez de fazer ativamente a obra agora. Jesus nos disse para trabalharmos até que Ele venha.
Meu primeiro problema com essa ideia é que quase todas as profecias de “coisa nova que está chegando”, usadas para apoiar essas alegações, são do Antigo Testamento. Mas a coisa nova já veio! Jesus é a revelação plena e completa de Deus, a expressão exata do ser do Pai (Hebreus 1:1–3). Essa “coisa nova”, válida para todo o tempo, foi Jesus Cristo, o Messias, revelado em glória radiante no Novo Testamento. Portanto, na minha opinião, não devemos esperar que uma “coisa nova” aconteça na era da Igreja do Novo Testamento. Trata-se, antes, do restabelecimento das “coisas antigas”, ou, em outras palavras, da continuação do ministério contínuo de Jesus (Atos 1:1).
Não estou dizendo que Deus não esteja movendo a Igreja em renovação. Está claro para mim que os grupos pentecostais estabelecidos que emergiram neste século provavelmente fizeram mais pela evangelização e pela plantação de igrejas do que qualquer outro grupo neste século. Mas a suposição de que existe uma nova tecnologia, técnica, estrutura ou metodologia a ser gerada por meio de uma experiência espiritual mais elevada em Deus é, em si mesma, suspeita — e talvez perigosa.
Isso pode ser perigoso porque pode nos afastar de Jesus, a Palavra encarnada, e da Bíblia, a Palavra escrita, para um lugar onde impressões subjetivas e especulações recebem mais autoridade do que deveriam. Quando deixamos de submeter todas as palavras proféticas à Palavra de Deus e, ao fazê-lo, elevamos profetas (com “p” minúsculo) a Profetas (com “P” maiúsculo), afastamo-nos de uma compreensão neotestamentária dos dons e passamos a entender esses líderes capacitadores como ofícios (ver pp. 11–12). Somos exortados a pesar e testar a profecia.
Um segundo problema de concentrar nossa atenção em uma “coisa nova” é a tendência ao elitismo. O elitismo é fomentado quando aqueles que deveriam ser os líderes capacitadores formam um núcleo especial que então dispensa a nova Verdade revelada àqueles que estão fora.
Uma situação semelhante se desenvolveu durante a Idade Média na Igreja Católica. A Bíblia estava escrita em latim (a Vulgata) e os sacerdotes, treinados em latim, eram a ponte entre o sagrado e as massas seculares não instruídas. Sem dúvida, essa situação se desenvolveu ao longo do tempo. Talvez a hierarquia da Igreja Católica estivesse simplesmente tentando interpretar a Palavra de Deus para uma igreja em grande parte analfabeta. Mas o que se desenvolveu não foi tão benéfico assim. Seu lugar especial de conhecimento e poder tornou-se, de fato, uma arma que o corpo sacerdotal de elite usou para separar as massas — que não possuíam o “dom” do latim — de Deus e da Bíblia. Esse “dom” tornou-se uma ferramenta poderosa para manter o controle sobre a fonte do poder. As massas não conseguiam entrar nos “lugares secretos” que esse conhecimento proporcionava.
Uma fixação doentia em um dos dons, em detrimento dos outros, resulta em crentes sendo classificados de acordo com seu nível de dons. Claramente, esse não é um caminho que a Igreja deva seguir.
Esse tipo de pensamento também viola um valor fundamental da Vineyard, pois reduz aqueles que estão fora do núcleo especial a um grupo que existe apenas para receber o que o núcleo tem a oferecer. Em outras palavras, a dependência de um corpo especial de pessoas para trazer revelações especiais de Deus retira o poder da Igreja e transforma o exército de Deus em uma plateia. Nosso objetivo na Vineyard é capacitar a Igreja para que todos sejam membros plenos do exército de Deus. Todos podem participar!
A suposição falsa final é que, com o desenvolvimento dos ofícios apostólico e profético (com “A” e “P” maiúsculos), esses “superapóstolos” seriam semelhantes — senão idênticos — aos Doze do Cordeiro. Essa visão é propagada de forma acrítica por seus defensores, pois eles não distinguem claramente, em minha opinião, entre os Doze do Cordeiro e o legado apostólico.
Embora eu creia que exista hoje um ministério apostólico em letras minúsculas, eu:
- não presumo que eles irão deslocar os líderes das estruturas eclesiásticas existentes hoje;
- não creio que qualquer um deles escreverá uma nova Bíblia ou comunicará algo em nível de igualdade com as Escrituras, visto que o cânon está completo (Apocalipse 22:18–19);
- também não os vejo governando ou usurpando poder, ou mesmo influência, sobre toda a Igreja (Apocalipse 4:9–11); e, finalmente,
- creio que o escopo da função apostólica hoje é o mesmo do Novo Testamento: ganhar almas, fazer discípulos e plantar, nutrir e desenvolver igrejas sobre as quais tenham autoridade espiritual.
Alguns que defendem o Ministério Quíntuplo usam João 14:12 — “Em verdade lhes digo que aquele que crê em mim fará as obras que eu faço e fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu vou para o Pai” — para sustentar a ideia de que surgirá a era do superapóstolo/profeta, caracterizada por “coisas maiores”. Mas o que significa fazer “coisas maiores”: maiores em quantidade ou em qualidade?
Não creio na suposição de alguns hoje de que os profetas do Novo Testamento sejam os mesmos que os profetas do Antigo Testamento. Wayne Grudem demonstrou de maneira muito abrangente porque os profetas do AT deram lugar aos apóstolos no NT, e qual é a natureza da profecia no NT.
No NT, os profetas não falavam com autoridade igual à das Escrituras. Por exemplo, a profecia de Ágabo sobre Paulo foi quase correta, mas não inteiramente. Ágabo afirmou que “os judeus de Jerusalém” prenderiam Paulo, mas, na verdade, foram os romanos que o acorrentaram. As epístolas do NT instruem os crentes a avaliar, testar, interpretar e então aplicar o que é bom nas profecias (1 Tessalonicenses 5:19–21; 1 Coríntios 14:29–38). Se a profecia do NT fosse sempre autoritativa, eles simplesmente seriam exortados a obedecê-la.
Portanto, o dom profético é válido. Mas reconhecer isso não significa aceitar a noção de que esses ministérios se tornem ofícios. Na minha compreensão, não há espaço nos versículos de Efésios 4:11–13 para assumir que os líderes capacitadores signifiquem ofícios que confiram prerrogativas, poderes exclusivos de graça ou autoridade estrutural sobre grandes porções — se não sobre toda — a igreja.
4. Continuando os Ministérios e os Dons até que Jesus Retorne
Estou plenamente de acordo com a afirmação expressa no título acima. Creio, sim, que há espaço em Efésios 4:11–13 para sustentar a noção de que essas funções ministeriais continuarão até que Jesus retorne. Paulo usa uma expressão temporal forte — “até” — no versículo 13 para indicar, em minha opinião, que os cinco dons e o seu propósito continuariam. Não creio que essa “unidade da fé” e essa “medida da plenitude” já tenham sido alcançadas; portanto, esses líderes capacitadores ainda são necessários.
Creio que também podemos argumentar de forma consistente, a partir de outras passagens das Escrituras, que esses dons continuam até os dias atuais e continuarão até que Jesus retorne. Aguardo com expectativa a expressão contínua de todas as cinco funções ministeriais de Efésios 4:11 até a volta do Senhor.
Mas como essas funções ministeriais devem ser exercidas e expressas na Igreja hoje? Essa será a pergunta que pretendo responder na Parte Dois.
Conclusão
Na minha opinião, a Igreja no mundo hoje está passando por mais um ciclo de renovação (avivamento histórico em alguns lugares, renovação em outros). E, como a Igreja é uma obra em progresso, não é útil que a Igreja dos dias atuais pense que pode avaliar-se exclusivamente a si mesma. Isso não significa que não devamos ser autocríticos. Mas não creio que seja válido escrevermos nossa própria história.
Em última instância, uma era da Igreja precisa ser avaliada pelas gerações que virão. Uma pergunta melhor a se fazer é: “O que estarão dizendo daqui a cem anos?” Ou, melhor ainda: “O que Jesus dirá?”
PARTE II
Cinco Recomendações para Ministérios
1. Todos os Ministérios São (Devem Ser) Provados no Nível da Igreja Local
É meu entendimento que esse é o padrão no Novo Testamento, onde exemplos concretos nos são apresentados. Permita-me ilustrar isso aqui com a primeira equipe missionária conhecida, Barnabé e Paulo.
Barnabé comprovou seu caráter e ministério na igreja local em Jerusalém e também em Antióquia. Em Jerusalém, Barnabé demonstrou sua generosidade e seu coração pelos pobres, e foi um encorajador daqueles que estavam ao seu redor. Ele foi um discipulador de pessoas, enxergando o melhor nos outros e agindo com base nisso. Era conhecido como um homem de bom e santo caráter, cheio do Espírito Santo e de fé, e alguém que sabia conduzir os perdidos a Cristo. Barnabé era tão digno de confiança que foi enviado como representante da igreja de Jerusalém para discernir o que Deus estava fazendo em Antióquia entre os gentios. Em seguida, Barnabé passou a fazer parte da equipe de liderança da igreja em Antióquia e voltou a comprovar ali o que já havia demonstrado em Jerusalém.
Barnabé também foi aquele que apresentou Saulo aos apóstolos em sua breve visita a Jerusalém, cerca de três anos após a conversão de Saulo. Quatro ou cinco anos depois, Barnabé trouxe Saulo de Tarso para Antióquia a fim de ajudá-lo na nova plantação de igreja. Saulo observou, aprendeu e ministrou juntamente com Barnabé de forma tão eficaz que os não crentes viram caráter semelhante ao de Cristo nos discípulos em Antióquia. Foi ali que eles foram chamados pela primeira vez de cristãos (“pequenos Cristos”). Em uma viagem ministerial de Barnabé a Jerusalém, ele levou Saulo consigo. Eles não apenas entregaram a oferta financeira, mas Barnabé teve também um tempo de ministério “lado a lado” com Saulo.
Este é o meu ponto: Saulo tinha a melhor formação religiosa disponível em sua época, um chamado muito especial e distinto sobre sua vida, e era abundantemente dotado. Mesmo assim, creio que esse tempo em Antióquia com Barnabé foi um período de discipulado e treinamento necessário tanto para o crescimento pessoal de Saulo quanto para que a igreja em Antióquia reconhecesse sua prontidão para ser liberado para um ministério mais amplo. Na minha opinião, não deveria ser diferente na igreja hoje.
Quando ministros competentes, no passado, optaram por deixar ministérios existentes e vir para Anaheim (algo que geralmente desencorajamos), fomos muito cautelosos. Há momentos em que alguns podem dizer com palavras ou atitudes: “Contrate-me!” Nossa resposta tem sido dizer-lhes que se envolvam no ministério por meio desta igreja local. Ensacar mantimentos na assistência social. Ministrar aos pobres. Orar pelos necessitados. Entregar sua vida livremente aos outros. Tornar-se conhecido nesta igreja.
Três ex-missionários hoje trabalham comigo na equipe. Os três retornaram do exterior para Anaheim por iniciativa própria e às suas próprias custas, e não lhes foi prometido nada além de comunhão e treinamento. Ao longo de quatro anos, eu os observei. Todos começaram com suas famílias ensacando mantimentos para entregar aos pobres. Eles se envolveram fielmente na vida da igreja desde que chegaram; tornaram-se conhecidos por nós ao longo do tempo. Não estavam procurando posição, status ou um ministério, mas procurando servir. Quando surgiu uma necessidade, contratei os três, em momentos diferentes.
Se uma pessoa não está fazendo a obra de forma eficaz dentro e por meio da igreja local, isso não passará a funcionar apenas porque ela pega um avião.
2. Todos os Ministérios São (Devem Ser) Reconhecidos pela Igreja Local
Todos concordamos que somente Deus pode chamar alguém para ser apóstolo, profeta ou para qualquer ministério. É o Espírito soberano quem concede dons à igreja.
Isso, porém, não invalida o fato de que o Corpo local de Cristo ainda precisa reconhecer e liberar todos os ministérios, inclusive os apóstolos. O exemplo mais conhecido é, novamente, a primeira equipe missionária, Barnabé e Saulo, em Atos 13:1–3. Na conversão, Deus já havia chamado Saulo/Paulo para um ministério entre os gentios. O próprio Espírito Santo disse aos líderes que agora era o tempo de separar esses dois para a sua obra. Mas a liderança da igreja jejuou e orou primeiro e, então, colocou seu selo sobre essa equipe, endossando seu caráter e ministério e confirmando o momento certo. Deus chama soberanamente, mas a igreja local reconhece e libera.
Em minha própria experiência na igreja de Anaheim, fui levado várias vezes a reconhecer líderes capacitadores emergentes. Darei apenas dois exemplos.
O primeiro é Monte Whitaker, na área de assistência social. Monte era adolescente quando ouviu um sermão que preguei sobre o problema dos pobres. Imediatamente depois, veio até mim e disse que acreditava que Deus o havia chamado para ministrar aos pobres. Não sei quais eram suas expectativas, mas quando respondi: “Ótimo! Comece doando as suas coisas”, ele pareceu um pouco desapontado. Mas foi exatamente isso que ele fez.
Ele e sua esposa, Brandi, mais tarde mudaram-se para uma área de Los Angeles e passaram a ajudar os pobres a partir de seus próprios recursos. Monte voltava para casa depois do trabalho e descobria que Brandi havia doado seus sapatos extras, ou cobertores e comida, para suprir a necessidade de alguém. Monte também fazia o mesmo, por exemplo, doando o próprio almoço.
Eu os observei e esperei por oito anos, perguntando a Deus se já era o tempo. Então o Senhor confirmou que era o momento de Monte ser reconhecido como pastor da área de compaixão na Vineyard de Anaheim.
No final de 1996, o ministério de compaixão em Anaheim havia crescido a ponto de:
- distribuir mais de 1,4 milhão de refeições em 1996;
- distribuir aproximadamente 32 toneladas de alimentos por mês;
- doar mais de 51.000 peças de roupas e cobertores e 2.300 kits diversos para apoiar pessoas em situação de rua;
- registrar, nos últimos anos, milhares de decisões por Cristo, por meio das mensagens evangelísticas durante as ações de compaixão;
- manter sete grupos familiares existentes e estar se preparando para plantar quatro novas igrejas latinas e uma igreja vietnamita entre as pessoas a quem ministramos no Condado de Orange.
O segundo exemplo é Todd Hunter. Todd e Debbie Hunter, juntamente com outro casal, vieram até nós logo após se formarem na Escola Bíblica da Calvary Chapel. Ambos os casais sentiam ter um chamado do Senhor para plantar uma igreja em Wheeling, West Virginia. Após um breve período com Todd, fiz uma avaliação do que ele precisava fazer para que pudéssemos reconhecê-lo e liberá-lo.
Antes de tudo, minha avaliação não se baseou no que alguns poderiam considerar óbvio: idade. De fato, nunca observo idade; observo maturidade ministerial. Eis uma amostra das avaliações objetivas que faço:
- Eles já estão em movimento, fazendo algo com base em uma visão de Deus?
- Demonstram fome por Deus, evidenciada por um forte desejo de crescimento pessoal e ministerial (procuro disposição para aprender)?
- Estão comprometidos como casal com o ministério?
- Eu os testo: Eles se arriscam? Tomam iniciativa? Conseguem desenvolver outros?
Dei a Todd algumas tarefas difíceis em uma ampla gama de ministérios práticos na área de formação, incluindo visitação hospitalar, ministério com crianças, e estabelecer e multiplicar um grupo familiar. Todd cumpriu todas as tarefas com excelência, demonstrando que podia evangelizar, discipular e multiplicar líderes.
Também considerei que a formação de Todd precisava ser fortalecida na área de informação, em temas como princípios de crescimento de igreja, planejamento e estratégia e princípios de liderança. Dei a Todd vídeos, livros e artigos para estudar, e passávamos uma tarde por semana discutindo o que ele havia aprendido. Todd diz que os princípios assimilados nesses tempos juntos ainda são pilares em sua perspectiva de ministério.
Após apenas seis meses conosco, liberamos Todd e Debbie para plantar a igreja em Wheeling, porque Todd havia comprovado seu ministério na igreja local aqui em Anaheim. Em seus sete anos em Wheeling, a igreja cresceu para centenas de pessoas, e ele esteve direta ou indiretamente envolvido em despertar, treinar ou inspirar muitas plantações de igrejas.
Isso não me surpreendeu, porque ele primeiro comprovou seu ministério no contexto da igreja local, e Deus também me deu uma palavra profética de que Todd tinha um chamado para liderar líderes. Todd agora realiza um excelente trabalho em sua posição atual como Coordenador Nacional da Associação de Igrejas Vineyard USA, onde está engajado no que considero ser a melhor e mais elevada forma de viver sua vida: liderar líderes.
Não tenho conhecimento de qualquer ministério no livro de Atos ou nas Epístolas que seja endossado por Deus e, ainda assim, não esteja sob os auspícios da igreja local. Ministérios itinerantes e desvinculados (no nosso vernáculo atual, “bombas-relógio”), que não respondiam à autoridade de uma igreja local, logo se tornaram um problema na Igreja Primitiva. Eles foram tratados de maneira muito específica nos escritos dos Pais da Igreja.
Independentemente de nosso dom, a submissão à liderança da igreja local é uma marca distintiva de um cristão (Hebreus 13:17; 1 Pedro 5:5). Portanto, a questão aqui não é se alguém acredita ser apóstolo, profeta etc. Deus certamente chama pessoas para essas funções no Corpo, mas isso será comprovado e reconhecido ao longo do tempo na igreja local.
3. Todos os Ministérios, Incluindo o Apostolado (com “a” minúsculo), São (Devem Ser) Confirmados no Campo ao Longo do Tempo
Queremos enviar pessoas através da igreja local com um histórico comprovado, mas que também demonstrem o mesmo padrão no campo ao longo do tempo.
Alguns hoje estão fazendo, na minha opinião, as perguntas erradas: “Você viu o Cristo ressurreto?”; “Você foi comissionado pelo Cristo ressurreto?”
Essas perguntas pertencem aos Doze do Cordeiro. Não temos vagas para os Doze do Cordeiro; o grupo dos Doze foi completado no primeiro século.
Aqui estão algumas das perguntas que acredito que deveríamos estar fazendo:
Existe um histórico comprovado no campo? Posso conversar com algumas das pessoas que evangelizou e que ainda estejam caminhando e crescendo por meio de uma igreja local?
A expressão “mostre-me seus filhotes e eu lhe darei seus documentos” surgiu nesse tipo de contexto, no qual eu queria ver o ministério comprovado no campo ao longo do tempo. Na situação específica em que essa frase surgiu, aquele pastor agora tem seus “documentos” porque me mostrou seus “filhotes”. Havia fruto em seu ministério.
Mas mesmo que alguém tenha hoje um chamado e um ministério apostólico (com “a” minúsculo) extraordinariamente frutífero, isso não significa que ele possua um ofício apostólico que, como já afirmei, confira prerrogativas, poderes exclusivos de graça ou autoridade estrutural sobre grandes porções da Igreja.
Na minha opinião, os únicos apóstolos hoje são apóstolos com “a” minúsculo — o equivalente moderno da função apostólica do primeiro século.
Devemos estar perguntando: “Qual é o fruto do seu ministério apostólico?”, e focando na descrição ampla da função apostólica no Novo Testamento. No meu entendimento, um histórico comprovado é a evidência primária da realidade do chamado de alguém, juntamente com o pleno endosso da igreja que o libera.
4. Todos os Ministérios Servem (Devem Servir) aos Propósitos de Alcançar os Perdidos e Estabelecer Igrejas
Alcançar os perdidos e plantar igrejas foi a descrição primária da função apostólica no primeiro século, e continua sendo a função permanente dos apóstolos (com “a” minúsculo) hoje. Creio que esse é o coração de Deus e a razão pela qual líderes capacitadores foram dados à igreja.
O contexto imediato de Efésios 4:11–16 confirma isso. O versículo 12 afirma que os líderes capacitadores existem para “preparar o povo de Deus para as obras do ministério” . Por quê? A expressão “para” indica resultado ou propósito. O dom ou o ministério não é um fim em si mesmo, mas existe para produzir o resultado de que “o Corpo de Cristo seja edificado”. O resultado é o crescimento do Corpo de Cristo.
Creio que o contexto imediato aponta primariamente para crescimento qualitativo (maturidade). É uma função importante dos líderes capacitadores ajudar cada pessoa no Corpo de Cristo a “crescer antes de envelhecer” e a “aprender a trabalhar em equipe”.
Entretanto, o crescimento quantitativo (numérico) certamente não está excluído da passagem de Efésios 4 e, de fato, é o alvo central da igreja do Novo Testamento. “Ir” e “crescer” eram os dois lados da mesma moeda para Jesus e para Paulo.
O contexto mais amplo do livro de Atos também sustenta essa conclusão. Uma leitura rápida do livro de Atos, focando nas passagens que tratam de crescimento, apresenta um quadro claro de uma igreja crescente, vibrante e penetrante, com os apóstolos atuando na linha de frente.
5. Todos os Ministérios São (Devem Ser) Exercidos em Humildade e com Amor por Todo o Corpo
Não é apenas importante o que fazemos, mas é igualmente importante como exercemos esse serviço, ou “diakonia”. Às vezes parece haver mais ênfase nos dons do Espírito do que no fruto do Espírito. Todos os ministérios deveriam ser exercidos com um tratamento justo, equilibrado e imparcial das pessoas.
Mesmo o ministério apostólico de Paulo não significava necessariamente que o apóstolo escolhia exercer plena autoridade em todos os lugares e em toda situação. Em alguns momentos, ele escolheu não usar toda a sua autoridade. Paulo reconheceu que seu apostolado significava que ele não deveria pesar sobre as pessoas, mas ser “bondosos entre vocês, como uma mãe que cuida de seus filhinhos”. Que retrato de uma postura terna, de autodoação, no exercício de autoridade e de dons.
O ministério de Paulo se baseava no cuidado, no amor e no relacionamento de um pai, e não apenas em chamado ou apostolado. Por exemplo, Deus havia usado Paulo para levar o evangelho a Corinto e lançar ali o fundamento da igreja. Embora ele reconhecesse e até utilizasse sua autoridade apostólica, Paulo preferia apelar aos coríntios como um pai espiritual.
Porque Paulo havia estabelecido a igreja, ele reivindicava um relacionamento especial com os coríntios. Isso permitia que Paulo falasse com eles com uma ousadia que talvez não fosse apropriada com outras igrejas (por exemplo, as igrejas em Jerusalém ou Roma, ambas estabelecidas por outros).
Um bom teste, na minha opinião, é ver se uma pessoa está disposta a aceitar um rebaixamento com o mesmo espírito com que aceitaria uma promoção. Por exemplo, já tive pessoas que não conseguem entender por que me afastei como pastor sênior de uma grande igreja enquanto eu ainda conseguia respirar. Elas não entendem. Eu nunca fui dono desta igreja. A Vineyard de Anaheim nunca foi minha igreja. Da mesma forma, o movimento Vineyard nunca foi meu movimento. Eu estou trabalhando para Deus, prestando serviço onde posso, e esse serviço está agora em uma arena diferente do que antes. Agora, na maior parte, é nos bastidores, com líderes, por meio de mensagens e telefonemas. Eu não me importo com o que faço, contanto que eu tenha uma parte na obra do Reino de Jesus. Eu sou um trocado no bolso de Deus; Ele pode me gastar do jeito que quiser. Eu entrei nisso sem nada, e pretendo sair sem nada além de Jesus. Isso é um bom negócio. Afinal, não foi por Jesus que todos nós entramos nisso?
Nós respondemos a Deus e à Sua soberania, e deixamos que outros reconheçam a obra de Deus em nós. “Que outro faça elogios a você, não a sua própria boca;
alguém de fora, não os seus próprios lábios” (Provérbios 27:2). Sempre fui cauteloso com pessoas que andam por aí chamando a si mesmas por algum título pomposo. Se isso for mesmo verdade, outros conseguirão perceber sem precisar ler isso em nossos cartões de visita. Até as coroas que temos no céu não serão mantidas, mas lançadas aos pés de Jesus em reconhecimento a quem pertencem (Apocalipse 4:10). Há apenas um grande homem no Reino, o homem Cristo Jesus, e nós o adoraremos por toda a eternidade.
“Mestre”, “pastor”, “evangelista”, “profeta” e “apóstolo” não são títulos para ostentar, mas uma mordomia a ser exercida em humildade e amor para com toda a igreja. Jesus ama toda a igreja, e nós também deveríamos amá-la. O Novo Testamento enfatiza funcionalidade e serviço à igreja, não a reivindicação de um ofício ou a autopromoção.
Paulo diz: “Assim, os homens devem considerar-nos como servos de Cristo e encarregados dos mistérios de Deus” (1 Coríntios 4:1). Quando Paulo relembrou aos líderes de Éfeso alguns dos valores nos quais baseou sua vida e ministério, ele disse: “Eu servi ao Senhor com toda humildade e com lágrimas… Guardem… todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo os constituiu bispos” (Atos 20:18, 28). Líderes capacitadores são dados a todo o Corpo para servi-lo em humildade e amor.
Resumo
Deus tem rica e criativamente dado líderes capacitadores à igreja desde o seu nascimento até hoje. Eu amo o que Deus quer fazer. Mas todos os ministérios, em minha opinião, devem ser provados e liberados por meio da igreja local, confirmados no campo através da plantação e desenvolvimento de igrejas, exercendo seu papel com humildade semelhante à de Cristo e com amor por todo o Corpo de Cristo. É assim que líderes capacitadores podem cooperar, nesta geração, com o Rei Exaltado, para continuar “tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar” (Atos 1:1). Vamos servir a Jesus juntos enquanto Deus nos der fôlego.
Definindo os Dons Quíntuplos
Contexto
Efésios 4:7–16 fala de líderes capacitadores que são dados à Igreja conforme Cristo distribui graça a cada um. Contudo, é muito importante observar que o contexto pressupõe, em minha opinião, uma pessoa já discipulada, que primeiro compreende sua posição, identidade e chamado em Cristo (o “então” ou “portanto” do versículo 4:1 remete aos três primeiros capítulos e ao nosso chamado pela graça).
Paulo, então, exorta esses líderes capacitadores a viverem uma vida caracterizada por uma expressão prática dessa verdade em sua própria conduta. Eles devem “viver de maneira digna do chamado” como prisioneiros do Senhor (v. 1). Paulo descreve esse caminhar usando palavras como humildade, mansidão, paciência, suportando uns aos outros em amor e unidade (vv. 2–6).
Esses líderes capacitadores não são apenas chamados a fazer escolhas consistentes para “revestir-se” do caráter semelhante ao de Cristo, mas Paulo também os instrui a não viverem como os gentios vivem, na futilidade dos seus pensamentos (v. 17). Em seguida, Paulo apresenta de forma muito prática áreas específicas das quais devemos “despir-nos”, como mentira, ira, roubo, linguagem torpe, amargura, gritaria e calúnia, e lista a resposta correspondente à semelhança de Cristo, da que devemos “revestir-nos” (4:20–32).
Como um cristão iniciante, fui ensinado que “Deus não usa vasos impuros”. Neste ponto da jornada, eu diria que “Deus prefere não usar vasos impuros”. Além disso, aqueles que são limpos, piedosos e bem estabelecidos na disciplina das Escrituras provavelmente terão um ministério de maior duração e melhor qualidade (e talvez maior em quantidade também).
Em resumo, os líderes capacitadores de Efésios 4:11 também devem possuir o caráter piedoso descrito em Efésios 4:1–6 e 17–32, além de um histórico de relacionar a verdade da Palavra de Deus às realidades da vida. Esta breve introdução contextual não faz justiça à importância que o caráter tem.
Introdução
Efésios 4:11–16 tem sido fundamental para o ministério da Vineyard desde a sua origem. Esse texto está no próprio coração da nossa ênfase em capacitar e liberar todo o Corpo de Cristo para as obras e palavras de Jesus.
Os líderes capacitadores de Efésios 4:11 são dados por Cristo à igreja com o propósito de capacitar os santos. Essas cinco áreas designadas de ministério são mais funções exercidas por pessoas do que cargos formais. Não se trata de ofícios institucionais — embora alguns comentaristas, na minha opinião, não sejam cuidadosos no uso dos termos (possivelmente porque com frequência são mais teóricos do que praticantes).
Na minha opinião, nem o texto nem o contexto de Efésios 4:11–13 justificam a suposição de que os líderes capacitadores devam ser entendidos como ofícios que conferem prerrogativas excepcionais, poderes exclusivos ou autoridade estrutural sobre parte da igreja – se não toda.
Paulo está ensinando que os líderes capacitadores são o dom de Cristo à igreja, e que esses líderes devem funcionar, por meio dos dons que o Cristo ressurreto concedeu, da seguinte maneira:
I. Apóstolos
A palavra apóstolo simplesmente significa “enviado”, e no Novo Testamento possui tanto um sentido amplo quanto um sentido restritivo.
A. A função apostólica – o sentido amplo do “apóstolo”- 2 Coríntios 8:23; João 13:16
Um apóstolo (com “a” minúsculo) é alguém enviado para ganhar almas e fazer discípulos, plantar e nutrir igrejas, e manter a ordem nas igrejas sobre as quais possui autoridade espiritual. Esse ministério era frequentemente acompanhado por sinais e maravilhas (Barnabé, Atos 11:22–26, 13:2–4, 15:12; Silas, Atos 15:22–23; Timóteo, 1 Tessalonicenses 1; 3:2–3). Os apóstolos do primeiro século incluem, entre outros: Barnabé, Tiago, Silvano (Silas), Epafrodito e Timóteo (Atos 14:14; Gálatas 1:19; 1 Tessalonicenses 1; 2:6; Filipenses 2:25). Outros plantadores de igrejas ao longo da história da igreja têm sido chamados de apóstolos por causa do seu trabalho em áreas específicas de missões (Ansgar, Cyril, Carey etc.).
B. Os Doze do Cordeiro (possivelmente incluindo Paulo) - o sentido restritivo de “Apóstolo” - Marcos 3:13–19; Mateus 10:1–4)
O Apóstolo (com “A” maiúsculo) inclui todas as características do apóstolo (com “a” minúsculo), além do fato de que esses apóstolos foram comissionados diretamente por Jesus (Atos 1:2–3; Gálatas 1:1), viram o Cristo ressurreto (Atos 1:22; 1 Coríntios 15:5–8) e alguns foram usados por Deus para escrever as Escrituras (Efésios 3:5; 2 Pedro 3:15). Esse grupo cessou com a morte de João, o último dos Doze, e são eles que governarão no Céu (Apocalipse 21:14).
II. Profetas
Um profeta é alguém por meio de quem o dom de profecia se manifesta de forma consistente. Essa pessoa é usada por Deus para comunicar à comunidade o que Deus deseja que seja dito a respeito de uma situação específica. Ele ou ela atua como porta-voz do Espírito, recebendo revelação direta de Deus.
A. Ministério profético no Antigo Testamento (AT)
Os profetas do AT foram enviados por Deus (Ageu 1:13; Obadias 1:1) e falaram e escreveram palavras que possuíam autoridade absoluta (2 Pedro 1:19–21; Números 22:38; Êxodo 7:1; Jeremias 1:9). Desobedecer a um profeta do AT era, na prática, desobedecer ao próprio Deus (Deuteronômio 18:19; 1 Samuel 8:7; 1 Reis 20:36). Os profetas do AT estavam, muitas vezes, no centro do ministério mais poderoso e dominante daquele período, repreendendo, corrigindo e desafiando os líderes nacionais de Israel — sacerdotes, juízes e reis (1 Samuel 15:26; 1 Reis 17:1). O ministério profético do AT cessou com o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, João Batista (Lucas 1:76; Mateus 11:9–13). A maioria dessas funções ministeriais foi transferida aos apóstolos (ver “Apóstolos” acima), e não aos profetas do Novo Testamento.
B. Ministério profético no Novo Testamento (NT)
Os profetas do NT falavam palavras que Deus colocava em seus corações para edificação, encorajamento e consolação do Corpo (1 Coríntios 14:30). Suas palavras nunca eram precedidas por expressões como “assim diz o Senhor” e nem sempre se cumpriam (Em Atos 21:11 foi profetizado que judeus iriam prender Paulo, mas em Atos 22:29 foram os romanos que colocaram Paulo na prisão). Por essa razão, os destinatários da profecia precisavam testar, pesar, interpretar e então aplicar aquilo que era dito (Paulo e sua viagem a Jerusalém — Atos 20:23; 21:4, 13; 1 Coríntios 14:29; 1 Tessalonicenses 5:19–22; Atos 11:27). Os profetas do NT atuavam sob a autoridade da Igreja, e não de forma independente (1 Coríntios 14:29–31).
III. Evangelista
Um evangelista é alguém que proclama a mensagem simples da salvação àqueles que ainda não são crentes, com o resultado efetivo de que homens e mulheres se tornam discípulos de Jesus e partes responsáveis do Corpo de Cristo. Paulo, por exemplo, sabia que tinha a obrigação de anunciar as Boas-Novas a todos os homens; ele se considerava devedor, era constrangido pelo amor, e entendia que o Evangelho era o único poder capaz de libertar os cativos (1 Coríntios 1:17–19; 9:16–18; Romanos 1:14–17). Um evangelista pode exercer um ministério itinerante, porém não há evidência no Novo Testamento de que não estivesse debaixo da autoridade de uma igreja local (Mateus 28:18–20; Atos 21:8; 2 Timóteo 4:5).
IV. Pastores ou Pastores-Mestres (ver ponto V)
Um pastor é aquele que zela pelo rebanho e supre suas necessidades espirituais, liderando, alimentando e protegendo as ovelhas colocadas sob o seu cuidado (Hebreus 13:17; 1 Timóteo 5:17; Atos 20:28). O pastor exerce esse ministério por meio de trabalho árduo, admoestando com a Palavra de Deus e sendo exemplo de uma vida piedosa, sabendo que prestará contas a Deus por essa responsabilidade (1 Tessalonicenses 5:12–13; Hebreus 13:17). Não há alegria maior do que ver e ouvir que o povo de Deus está andando de acordo com a Sua Verdade (3 João 3; Hebreus 13:17). É possível que o termo seja “pastor-mestre”, uma vez que ensinar é uma função primária do pastor. No texto original, a palavra “mestre” não possui artigo (diferente das outras funções), e é utilizado um conector gramatical diferente, o que sugere uma ligação mais estreita entre essas duas funções.
V. Mestres
Um mestre é aquele que supre as necessidades espirituais do rebanho ao revelar com precisão as verdades da Palavra e relacioná-las às necessidades, oportunidades e mistérios da vida. Os mestres não apenas ensinam, mas treinam o Corpo a pensar como os autores bíblicos, para que seus processos de pensamento sejam transformados e se tornem mais semelhantes aos de Cristo (Romanos 12:1–2; 1 Coríntios 2:9–16). O ministério de ensino foi fundamental para a Igreja Primitiva (Atos 2:42), é um requisito para pastores (1 Timóteo 3:2; 5:17), e algo em que se deve trabalhar com diligência (2 Timóteo 2:15), tanto por causa do propósito e da função da Palavra de Deus (2 Timóteo 3:16–17) quanto por causa da advertência dirigida aos mestres em Tiago 3:1.
Conclusão
Se “fruto que permanece” (João 15:16) e “capacitados para servir” (Efésios 4:12) são os objetivos, como então devemos avaliar as expectativas? Aqui estão algumas perguntas sugeridas para cada uma das cinco funções:
Função apostólica - Quantos discípulos e igrejas existem como fruto do seu ministério?
Função profética - As palavras proféticas beneficiam outros? Quantos crentes estão sendo capacitados a profetizar?
Função evangelística - Quantas pessoas foram alcançadas e integradas à vida da igreja? Quantos evangelistas foram treinados e enviados?
Função pastoral - Quantas pessoas foram capacitadas para a vida e para o ministério? Quantas delas são capazes de ajudar outras da mesma forma?
Função de ensino - Quão bíblico, pessoalmente útil e culturalmente relevante é o ensino? Quantos mestres foram capacitados e liberados?
Fonte: Vineyard Reflections. John Wimber’s Leadership Letter. August 1997
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