Introdução
O dom de profecia é um tema central e altamente valorizado nas Escrituras, com Paulo exortando os crentes a buscar "com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia" (1 Coríntios 14:1). Este capítulo se aprofunda na compreensão deste dom multifacetado, revisitando suas origens, explorando suas características distintivas no Novo Testamento e delineando suas aplicações práticas e missionais. A profecia, como uma bola de neve, tem ganhado peso e relevância ao longo de vários contextos importantes.
A Natureza Abrangente da Profecia
Desde os primeiros dias da igreja, a profecia esteve intrinsecamente ligada ao derramamento do Espírito Santo. O Pentecostes é compreendido primariamente como uma capacitação profética, refletindo a unção profética de Jesus sobre Seus discípulos, em uma narrativa de sucessão que ecoa os "filhos dos profetas" do Antigo Testamento. De fato, o dom profético foi frequentemente a experiência inicial daqueles que recebiam o poder do Espírito, manifestado em declarações proféticas, incluindo línguas. Ao traçar essa trajetória dos "filhos dos profetas" até Jesus e os discípulos, percebemos que a profecia era um dom abrangente que englobava outros dons, como cura, libertação e fenômenos reveladores.
Embora possa ser um dom abrangente, as listas paulinas de dons carismáticos também definem a profecia como um dom específico. Nesse contexto mais restrito, ela pode variar desde declarações curtas e momentâneas até sermões ou homilias completas, sendo um dos melhores dons para explicar o contínuo do "gracelete" ao ministério e ao "ofício".
O Coração da Profecia Neotestamentária: Paraklesis
A característica principal da profecia no Novo Testamento é o "encorajamento" (paraklesis). Esta palavra está intimamente ligada a parakletos, o termo usado para o Espírito Santo, que pode ser traduzido como Advogado, Amigo, Auxiliador ou Conselheiro. Da mesma forma, paraklesis possui um rico campo semântico, sendo frequentemente traduzida como "exortação", "encorajamento" ou "fortalecer".
Paulo descreve a profecia como "fortalecimento, encorajamento e conforto" (1 Coríntios 14:3 NVI), utilizando as palavras gregas oikodomen (edificação/fortalecimento), paraklesin (exortação/encorajamento) e paramutiano (conforto). O que fica claro é que as pessoas que profetizam, inspiradas pelo Espírito Santo, produzem nas outras o mesmo efeito desejável que o próprio Espírito Santo. É por essa razão que Paulo valoriza tanto a profecia, pois quem não desejaria ser fortalecido, encorajado, confortado e edificado?.
Diferenças Cruciais da Profecia no Antigo Testamento
A profecia do Novo Testamento se distingue significativamente da profecia do Antigo Testamento. Enquanto a trajetória dos "filhos dos profetas" e de Elias/Eliseu se mantém relevante, o status dos grandes profetas escritores e das figuras teocráticas que confrontavam reis e proferiam julgamentos nacionais com autoridade total não é transferido para o Novo Testamento. No Antigo Testamento, a palavra de um profeta era vista com autoridade completa, e erros resultavam na designação de "falso profeta". No Novo Testamento, os apóstolos, e não os profetas, assumiram algumas dessas funções de autoridade.
Em contraste, a profecia do Novo Testamento se move em duas direções simultâneas: de poucos para muitos ("toda carne") e em direção ao encorajamento e longe do julgamento. O único modelo de profecia do Antigo Testamento com uma ligação clara ao Novo Testamento é a comunidade de pessoas proféticas, os "filhos dos profetas".
Ensino Profético: Uma Fusão de Dons
Embora Paulo liste profecia e ensino como dons distintos, é um erro concluir que não há sobreposição entre eles. A profecia pode incluir instrução, revelação, conhecimento e doutrina. Personagens como Barnabé exemplificam essa fusão, sendo descrito como um homem "cheio do Espírito Santo e de fé" que animava (parakalei) as pessoas a permanecerem fiéis e que, junto com Saulo, "ensinou a muitos". A gramática grega em Atos 13:1 sugere que os líderes em Antioquia poderiam ser "profetas-mestres".
Há evidências substanciais da fusão entre as tradições proféticas e de sabedoria no judaísmo pré-cristão, como visto em Daniel e na comunidade de Qumran. Os "maskilim" de Qumran eram intérpretes carismáticos que compreendiam os "mistérios" do Antigo Testamento pela revelação do Espírito, vendo os eventos atuais como desdobramentos da era vindoura. Essa exegese carismática, onde o significado das Escrituras é revelado pelo Espírito Santo e não pela razão humana, é refletida na forma como Paulo descreve a revelação dos mistérios divinos. Assim, os "profetas ensinadores" ou "professores proféticos" são aqueles que abrem as Escrituras de tal forma que os ouvintes têm momentos de "aha!", vendo coisas que nunca viram antes.
Profecia Situacional: Manifestações Espontâneas
Além do ensino profético, existe a profecia situacional, que é espontânea e não preparada, vindo como uma manifestação do Espírito para uma ocasião específica. Este tipo de profecia possui características importantes:
1. Não tem autoridade divina e pode ser silenciada.
2. Precisa ser testada.
3. É imperfeita e pode conter verdade misturada com erro. Um exemplo é o profeta Ágabo, que previu a prisão de Paulo em Jerusalém. Embora a revelação geral estivesse correta, Ágabo errou em detalhes (quem prenderia Paulo e o entregaria aos gentios) e na aplicação, pois a revelação não deveria dissuadir Paulo, que estava disposto a ir por "vontade do Senhor".
O Propósito e As Diretrizes da Profecia
O propósito central da profecia é gerar o mesmo efeito desejável do Espírito Santo: ser encorajado, exortado, fortalecido, confortado e edificado. Seus objetivos mais detalhados incluem: preparação, aplicação prática das Escrituras, destaque ou liberação de dons, cura física ou emocional, confirmação de missão, exposição de táticas de Satanás ou pecado oculto, inspiração para a adoração e advertências. Embora a orientação e a predição possam ocorrer, elas são consideradas subsidiárias no Novo Testamento.
Para um exercício saudável da profecia, há diretrizes bíblicas essenciais:
• Deve ser desejada ardentemente (1 Coríntios 14:1).
• Deve ser exercida com amor (1 Coríntios 13:2).
• Não deve ser desprezada (1 Tessalonicenses 5:19-22).
• Deve ser ordenada (1 Coríntios 14:13-40), significando que é controlável, dada por sua vez e sob a liderança da igreja.
• Deve ser pesada e avaliada (1 Coríntios 14:29-32; Atos 21:10-15).
A profecia pode surgir de diversas formas de revelação do Espírito Santo: textos das Escrituras, imagens, palavras sobrepostas à visão natural, frases que surgem na mente, impressões, sensações físicas, sonhos, emoções, cheiros e gostos. Ao receber uma revelação, é crucial perguntar se é consistente com as Escrituras e o caráter de Deus, pedir interpretação e discernimento, e buscar orientação sobre como proceder (orar, entregar, guardar).
Entrega e Crescimento no Ministério Profético
A entrega de uma profecia deve ser feita com sabedoria e amor:
• Avaliar o momento e o contexto (se um líder deveria ouvir primeiro, se é apropriado) e ter paz com a palavra.
• Falar com simplicidade, sem floreios, com amor, encorajamento, edificação ou conforto.
• Geralmente usar a terceira pessoa (evitando "assim diz o Senhor") e uma linguagem normal, sem tons de voz especiais.
• Deixar espaço para o erro com "linguagem de isenção de responsabilidade".
• Proteger a dignidade da pessoa que recebe a palavra.
• Escrever a profecia.
Existem regras claras para o ministério profético no Novo Testamento, incluindo: nunca subverter o processo de teste ou a autoridade individual, evitar profecias sobre casamentos, romances ou bebês, não ter profecias secretas ou negativas, respeitar a dignidade e privacidade, não resolver conflitos com profecia, e não tomar decisões importantes baseadas em uma única palavra profética.
Para crescer na profecia, é fundamental encher-se das Escrituras, jejuar e orar, adorar, cultivar um espírito tranquilo, escrever as impressões, assumir riscos e buscar a imposição de mãos para receber o dom.
Testando Profetas e Profecias
A Bíblia incentiva o teste tanto do caráter dos profetas quanto do conteúdo das profecias. Deve-se considerar o caráter daqueles que profetizam (paixão por Jesus, honra à Bíblia, vida responsável, submissão à autoridade, servidão, estabilidade emocional, motivos puros e maturidade). O ministério do indivíduo também deve ser avaliado: produz frutos divinos, é consistente e preciso, glorifica Jesus Cristo e reflete o coração de Deus. É crucial evitar mitos como "unção é igual a caráter" ou "unção é igual a endosso de Deus".
Ao testar a profecia em si, a atitude deve ser de sinceridade, amor, coração aberto e confiança. É preciso distinguir entre:
• Verdadeira profecia: originada do Senhor, comunicada com precisão (embora possa ter impurezas na entrega), inspirada pelo Espírito e com poder que produz frutos divinos.
• Falsa profecia: inspirada por um espírito maligno, com poder maligno e frutos ímpios, distorcida e prejudicial.
• Não-profecia: mensagem em forma profética, mas que surge dos pensamentos do orador, sem inspiração divina, não produzindo nada e sem poder.
O rigor do teste depende do conteúdo (profecia inspiradora versus direcional/corretiva). Deve-se testar o conteúdo (o que é dito, se confirma algo que Deus já está fazendo, se é consistente com as Escrituras, se Deus fala a mesma coisa a muitas pessoas). A profecia verdadeira adiciona foco e perspectiva às Escrituras, mas nunca as acrescenta ou entra em conflito com elas. Por fim, testa-se a profecia pelo seu benefício (se foi benéfica e verdadeira no passado, se as ocorrências previstas se concretizam, se glorifica Jesus) e pelo testemunho do próprio coração e do Espírito Santo.
Conclusão: Profecia como Ferramenta Missional
Embora grande parte da discussão sobre o ministério profético se concentre em seu uso dentro da igreja, Paulo destaca um de seus principais benefícios: a capacidade de convencer e julgar um descrente ou não instruído, expondo os segredos do seu coração e levando-o a adorar a Deus, exclamando: "Deus realmente está entre vocês!" (1 Coríntios 14:24-25). A igreja, nesse sentido, serve como um campo de treinamento para o que é feito fora de seus muros. Quando os dons proféticos são usados com descrentes na sociedade, tornam-se um gatilho para cura poderosa e evangelismo poderoso. A profecia desempenha, portanto, um papel vital no resultado missionário do reino de Deus e no poder do Espírito Santo, impulsionando tudo em direção a esse objetivo.
Fonte: Resumido por IA do livro Demonstrating the Kingdom - Tools for Christian Discipleship, de Derek Morphew, Vineyard International Publishing (2019)