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ESCATOLOGIA INAUGURADA: O FIM JÁ VEIO ATÉ NÓS

A compreensão da escatologia – o estudo dos últimos dias ou dos "fins dos tempos" – é fundamental para moldar a visão e a missão da Igreja. Contudo, poucas doutrinas são tão frequentemente mal compreendidas ou distorcidas quanto a escatologia. Muitos a veem como um conjunto de eventos distantes e futuros, desconectados da realidade presente. No entanto, a perspectiva bíblica central, especialmente na mensagem de Jesus, é a da Escatologia Inaugurada, um conceito que nos desafia a viver na tensão do "já, mas ainda não" do Reino de Deus.


A Mensagem Central de Jesus: O Reino de Deus

A pesquisa sobre o Jesus Histórico, especialmente a Terceira Quest, tem consistentemente apontado que o tema central da mensagem de Jesus era o Reino de Deus. Essa esperança do Reino estava profundamente enraizada nas expectativas escatológicas judaicas do primeiro século. Os judeus esperavam a vinda de um Messias davídico que marcharia sobre Jerusalém, expulsaria os opressores (como os romanos) e estabeleceria um reino político de paz e justiça sobre todas as nações, cumprindo as promessas do Antigo Testamento de forma visível e imediata.

Contrariando essas expectativas predominantes, Jesus anunciou que o Reino de Deus "está próximo" ou "chegou" (Marcos 1:15). Ele não ofereceu o tipo de reino terreno glorioso que Israel esperava naquele momento. Sua vinda não foi a de um rei em um trono de glória, mas a de um Messias humilde, que sofreria e morreria. Essa realidade inesperada é o cerne da Escatologia Inaugurada.


O "Já" do Reino: Uma Realidade Presente

A Escatologia Inaugurada afirma que os fins dos tempos foram inaugurados na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O Reino de Deus não é apenas uma esperança futura, mas uma realidade presente e dinâmica.

Sinais do Reino: As ações de Jesus, como curas, milagres e exorcismos, não eram meros atos de compaixão, mas sinais e manifestações literais da presença do Reino de Deus. Ao expulsar demônios, Jesus declarava que o Reino de Deus havia "chegado sobre vocês" (Mateus 12:28), indicando uma derrota preliminar, mas decisiva, ao reino de Satanás.

A Mensagem e a Pessoa de Jesus: A palavra de Jesus não era apenas um anúncio; ela trazia à existência o que proclamava – "libertação para os cativos, recuperação da vista para os cegos, liberdade para os oprimidos". O próprio Jesus e seu ministério eram a manifestação do Reino.

Parábolas do Reino: As parábolas de Jesus, como a do grão de mostarda e a do fermento, ilustram o crescimento discreto, mas poderoso, do Reino de Deus. O Reino já está operando no mundo de forma "oculta", como uma semente que cresce.

A Nova Aliança e o Espírito: O Reino de Deus foi estabelecido na Nova Aliança através da morte e ressurreição de Cristo. Com a ascensão de Jesus e o derramamento do Espírito Santo no Pentecostes, o Reino se expandiu exponencialmente, transferindo pecadores "do império das trevas para o reino do Filho do seu amor" (Colossenses 1:13-14). A vinda do Espírito Santo é um passo crucial para a Nova Criação no presente, constituindo a Igreja como o novo Templo de Deus.


O "Ainda Não" do Reino: Uma Esperança Futura

Embora o Reino de Deus já esteja presente, ele ainda não foi plenamente consumado. Vivemos em um período de tensão entre o que já foi iniciado e o que ainda está por vir.

A Consumação Futura: A plenitude do Reino aguarda o retorno de Cristo, quando Ele virá em glória para julgar o mundo e estabelecer o novo céu e a nova terra, onde toda a dor, o luto e a morte serão eliminados. A vitória definitiva sobre a morte ainda não ocorreu, pois as pessoas continuam a morrer.

Sofrimento e Oposição: A persistência do mal, da tragédia e da violência no mundo é uma prova de que o Reino ainda não está em sua plenitude. Jesus e seus seguidores enfrentaram e continuam a enfrentar oposição. A Igreja vive em meio a essa batalha contínua, onde a fragilidade e o sofrimento fazem parte da experiência.

Milagres como "Antegozos": Milagres de cura e libertação hoje são vistos como "antegozos" ou "sinais" do Reino futuro. Não há garantia de que todos serão curados agora, mas a ocorrência de milagres serve como uma lembrança da promessa de Deus de uma futura restauração completa.


Implicações Pastorais e de Liderança

A Escatologia Inaugurada oferece uma estrutura robusta para a vida e a missão da Igreja no presente:

A Missão da Igreja: Crescer o Trigo, Não Arrancar o Joio: Jesus não incumbiu seus seguidores de serem a "polícia do joio", que se dedica a julgar e eliminar o mal do mundo através da força. Nossa responsabilidade principal é o "programa de crescimento do trigo" – espalhar a mensagem do Reino, transformar vidas através da graça de Jesus e formar comunidades que reflitam os valores do Reino. A Igreja deve se concentrar em anunciar as boas novas e manifestar os valores do Reino, pois Deus, em seu tempo, separará o trigo do joio.

Esperança Ativa em Meio à Realidade: Devemos reconhecer que estamos em um "tempo de superposição" onde o velho e o novo coexistem. Isso exige paciência e diligência. A esperança não é uma passividade que espera o rapto, mas uma força que nos impulsiona a agir no mundo, testemunhando e encarnando o Reino. A compreensão do julgamento final de Deus, embora possa parecer "extrema" para alguns, é uma fonte de coragem e esperança para aqueles que estão ativamente envolvidos na missão do Reino e enfrentam oposição.

Combate ao Escapismo Espiritual: A Escatologia Inaugurada desafia diretamente a visão platônica de que o objetivo do cristianismo é "ir para o céu" e escapar deste mundo. Essa visão tem levado muitos cristãos a uma atitude escapista, negligenciando a responsabilidade de se envolverem na transformação do mundo e na resolução de seus problemas. O Reino de Deus, por sua vez, é sobre a redescoberta do propósito de Deus para toda a criação – Deus não abandona sua criação à decadência, mas a redime e a renova. Somos chamados a ser o "projeto piloto" dessa nova criação.

Envolvimento na Cultura e Justiça: A Igreja não é apenas uma "sala de espera para o céu", mas uma participante ativa no Reino de Deus. Isso significa proclamar o evangelho, sim, mas também se engajar em atos de justiça e misericórdia, cuidando dos marginalizados e promovendo a paz. Nossa missão é manifestar os valores do Reino no presente, através de uma vida transformada e de comunidades que encarnam a retidão e o amor. Somos chamados a exercer uma "administração sábia" sobre a criação, refletindo a imagem de Deus.

Unidade e Santidade: A unidade e a santidade da Igreja são símbolos centrais do movimento cristão e só podem ser sustentadas por uma teologia vigorosa que compreenda quem é Deus e o que Sua ação em Jesus e pelo Espírito significa. Essa compreensão deve se traduzir em um estilo de vida que reflita os valores do Reino, uma retidão radical que supera a mera conformidade externa e se manifesta em amor, humildade, misericórdia e uma busca por justiça social.

Atenção aos Ensinamentos de Jesus: Pastores e líderes devem guiar suas congregações a uma leitura aprofundada dos Evangelhos, que contam a história de Jesus como o clímax da história de Israel e de seu Deus, resultando na chegada do Reino de Deus de uma maneira surpreendente e subversiva. Essa é a chave para entender a missão e a teologia da Igreja Primitiva.

A Influência de John Wimber e o Movimento Vineyard: A Escatologia Inaugurada, particularmente a tensão entre o "já" e o "ainda não" do Reino de Deus, encontrou uma expressão prática e influente através de líderes como John Wimber e o movimento Vineyard. Reconhecendo que o Reino de Deus foi inaugurado por Jesus, a Vineyard abraçou a crença de que o Reino pode "invadir" a realidade presente. Isso se manifestou na prática da oração por cura e na realização de milagres, vistos como sinais e antegozos da plena consumação do Reino. Contudo, o movimento se distingue por sua abordagem equilibrada: enquanto oram com fé por curas e testemunham muitas delas, eles também reconhecem que nem todos são curados, e o sofrimento ainda persiste no mundo. Essa postura evita os extremos do cessacionismo (que nega os milagres hoje) e de um triunfalismo (que exige cura ou manifestação do Reino em todas as situações, culpando a falta de fé por ausência de resultados). Assim, a Vineyard exemplifica como viver na tensão do "já, mas ainda não", engajando-se ativamente na missão de Deus por meio da proclamação do evangelho, atos de compaixão e busca por justiça, ao mesmo tempo em que aguarda a futura e completa restauração. A influência dessa teologia prática ressoa na Igreja em geral até os dias de hoje, encorajando uma fé que é tanto presente e ativa quanto esperançosa e paciente.

Em suma, a Escatologia Inaugurada nos convoca a uma fé que é tanto ancorada na vitória decisiva de Cristo no passado quanto impulsionada pela esperança de Sua consumação futura. Ela nos chama a ser "povo do Reino" agora, ativamente envolvidos na obra de Deus de redenção e restauração, mesmo em um mundo ainda marcado pelo pecado e pela dor. É um chamado para vivermos com propósito, paciência e coragem, sabendo que nosso "trabalho no Senhor não é vão" (1 Coríntios 15:58).

Que esta compreensão renove nossa paixão e nos capacite a liderar o povo de Deus na missão do Reino, para a glória de nosso Rei que já veio e que voltará!


Fontes:

- Craig Keener: vídeo "Craig Keener: Historical Jesus, The Gospels, and Miracles" do canal "Haden Clark" e do vídeo "Craig Keener: Trusting The Signs of the Kingdom [Biola University Chapel]" do canal "Biola University".

- George Eldon Ladd: livro "The Gospel Of The Kingdom"

- N. T Wright: "Imagining the Kingdom: Mission and Theology in Early Christianity” - no website  NTWrightPage; e vídeo "N. T. Wright on the Future of the World" do canal Fuller studio; e vídeo "What We've Missed About the Kingdom of God | N.T. Wright | Praise on TBN" do canal "Praise on TBN".

- Sam Storms: “The Kingdom of God: Already but Not Yet - Part I".

- The Gospel Coalition: "The Kingdom of God".

- The Gospel Coalition | Australia: artigo "The Already and Not-Yet Kingdom

- Tim Mackie:  vídeo "Already, Not Yet [Parables of the Kingdom] Tim Mackie (The Bible Project)" do canal "Tim Mackie Archives".

- Vineyard USA: "What Is The Kingdom? | The Now And The Not Yet Of The Kingdom".

 

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