INTRODUÇÃO
O ministério de demonstração do Reino de Deus encontra sua expressão mais importante no evangelismo de poder. Curar os enfermos e libertar os cativos são elementos centrais deste trabalho, baseados na autoridade delegada do Reino que Jesus concedeu aos Seus discípulos. O objetivo é equipar e treinar os cristãos para operar na dimensão mais importante de todas: o evangelismo de poder. Embora a cura e a libertação sejam abordadas separadamente, elas estão intrinsecamente ligadas, sendo os exorcismos de Jesus frequentemente descritos como "curas" (do grego therapeuō).
CURA
A Base do Ministério de Cura de Jesus
O ministério de cura de Jesus não se baseou em Sua divindade, mas em Sua humanidade ungida pelo Espírito Santo, conforme declarado por Pedro em Atos 10:36-38. Pedro afirma que Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, e Ele andou por toda parte curando os oprimidos pelo diabo. Visto que Jesus operou como um ser humano ungido, Ele se torna nosso modelo de ministério.
Delegação de Autoridade e Identidade em Cristo
Lidar com as grandes multidões que O seguiam levou Jesus a multiplicar Seu ministério, delegando Sua autoridade, primeiro aos doze e depois aos setenta e dois. Esta delegação é um chamado para toda a igreja e inclui "autoridade para expulsar espíritos imundos e para curar todas as doenças e enfermidades".
O evangelista Mark Marx enfatiza a identidade em Cristo. A autoridade que Jesus nos deu é vital. Quanto mais carregamos a revelação do Espírito sobre nossa autoridade e identidade (somos filhos, herdeiros e co-herdeiros com Cristo), mais resultados veremos ao agir "em nome de Jesus".
A autoridade de Jesus é agora mais elevada, pois Ele está assentado à direita de Deus, e essa autoridade é para Sua igreja. O uso correto do nome de Jesus não deve ser como um mantra; quando nossa autoridade e identidade delegadas se tornam parte do nosso DNA espiritual, então podemos agir "em nome de Jesus".
Modelagem do Ministério
A maioria dos cristãos usa a oração de petição ("Pai Celestial, por favor, venha e cure..."). Contudo, o método mais frequente de Jesus e dos discípulos era falar com a enfermidade e dar uma ordem com autoridade, operando de uma posição de autoridade onde o movimento vai do céu para a terra. Ao exercermos a autoridade do Reino, podemos ser espontâneos e criativos na forma como a usamos, buscando métodos que liberem a fé e sejam adequados ao contexto, como o uso de cuspe, lama, imposição de mãos ou palavras de comando.
LIBERTAÇÃO
Fundamento Bíblico e Importância
A libertação é vista como um ministério importante. Jesus definiu Sua missão em termos de libertar os cativos (Lucas 4:16-21). A expulsão de demônios era a própria essência do Seu ministério no Reino. Jesus comissionou os doze e os setenta e dois com poder e autoridade sobre os demônios, e Ele se alegrou com a queda de Satanás quando os setenta e dois retornaram vitoriosos.
O Continuum da Demonização
O Novo Testamento nunca usa a palavra "possuído" para descrever a aflição demoníaca. A palavra grega daimonizomai é traduzida mais literalmente como "demonizado", significando ser influenciado, afligido ou atormentado por um poder demoníaco. A aflição demoníaca existe em um continuum ou escala, desde a mera influência (como quando Jesus repreendeu Pedro, chamando-o de "Satanás") até o controle quase total, como o gadareno endemoninhado. Tanto as Escrituras quanto a experiência mostram que os cristãos às vezes necessitam de libertação, embora estejam seguros em Jesus.
Pontos de Entrada e Sinais
Os demônios geralmente precisam de um direito "legal" à vida de uma pessoa, que ocorre através de escolhas erradas, como envolvimento com o ocultismo ou pecado intencional. A falta de perdão prolongada ou as obras da carne (como ódio, ciúmes, ira) podem dar lugar ao diabo. O diabo também se aproveita de traumas e tragédias, como abuso ou laços de alma prejudiciais.
Sinais de demonização, segundo a sabedoria da igreja (como o Rituale Romanum), incluem força física sobrenatural, falar ou compreender línguas não aprendidas, aversão intensa a objetos religiosos, e mudanças na voz ou postura corporal.
Crise versus Processo e Passos para a Liberdade
Existem duas abordagens principais para a libertação:
1. Crise: Confronto imediato (seguindo o modelo sinótico de Jesus e dos apóstolos em Atos).
2. Processo/Verdade: Auto-libertação através da verdade bíblica, baseada no ditado de Tiago 4:7: "Sujeitem-se, então, a Deus. Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós". Esta abordagem de processo, popularizada por Neil Anderson e utilizada na Vineyard, concentra-se na confissão, arrependimento e afirmação da verdade bíblica.
Passos para a Liberdade (Wimber): A lista concisa e sensata de Wimber inclui: voltar-se para Cristo, confessar e renunciar ao pecado, assumir autoridade em nome de Jesus e destruir objetos de ocultismo.
Guerra Espiritual e os Poderes
A demonização individual é parte de uma narrativa bíblica mais ampla sobre os "poderes". O Novo Testamento descreve os poderes (archai kai exousiai) como celestiais e terrenos, espirituais e políticos. Os poderes invisíveis caídos encarnam-se em sistemas de crenças e estruturas sociais de injusTça e opressão.
Nossa missão é clara: as Escrituras nos ensinam a lutar contra os demônios que prejudicam as pessoas individualmente. No entanto, devemos ter cuidado, pois a Bíblia não nos autoriza a confrontar diretamente os espíritos territoriais ou "poderes invisíveis". O livro de Judas adverte especificamente contra essa práica. Em vez disso, somos chamados a confrontar as manifestações visíveis desses poderes, como ideologias e sistemas, vivendo de forma contrária aos seus valores e sistemas de crenças.
EVANGELISMO DE PODER
Definição e Impacto
O evangelismo de poder é uma apresentação do evangelho que é racional, mas também transcendente, incluindo uma demonstração do poder de Deus por meio de sinais e maravilhas. Por meio desses encontros sobrenaturais, as pessoas experimentam o poder de Deus, tipicamente por palavras de conhecimento, cura, profecia e libertação. Ele é crucial por seu impacto missionário, pois "corta a resistência que vem da ignorância ou atitudes negativas," movendo as pessoas rapidamente ao longo da Escala Engel. A Escala Engel explica o processo da fé, listando as fases pelas quais as pessoas se movem, começando pela Consciência do Ser Supremo (-8) até chegarem à Nova Criação (arrependimento e fé em Cristo, -1), e progredindo então para o Crescimento Conceitual e Comportamental (+3).
Encontros Divinos e Contraste com o Evangelismo Programático
O evangelismo de poder ocorre através de encontros divinos, ocasiões nas quais Deus escolhe realizar Suas obras através da nossa obediência e fé.
Em contraste com o evangelismo programático (onde o cristão tenta testemunhar a todos, confiando em mensagens pré-embaladas), o evangelismo de poder é iniciado pelo Espírito Santo para um lugar, tempo, pessoa ou grupo específico. A postura é de total dependência: no evangelismo de poder, "Deus fala e então agimos".
Do Santuário para as Ruas (O Modelo de Jesus)
O ministério público sustentável é baseado na oração pessoal e privada (o santuário). A vida de Jesus foi caracterizada por momentos de solidão com o Pai alternados com ministério ativo. Jesus frequentemente buscava lugares solitários para orar, e Sua vida de oração precedeu e permeou cada momento importante de Seu ministério, desde Seu batismo até Seu último suspiro.
Desenvolvendo a Arte de Ver, Ouvir e Fazer
A progressão essencial para o evangelismo de poder é Ver, Ouvir e Fazer. O Ver e Ouvir têm a ver com operar nos dons reveladores. A progressão prática para a ministração é Revelação, Interpretação e Aplicação. O erro comum é esperar que a revelação venha apenas como sinais de neon; na maioria das vezes, ela chega através de "impressões muito fugazes e tênues". O treinamento pode ajudar os cristãos a reconhecerem o que já estão recebendo (ver, ouvir, sentir, pensar).
Fé é Soletrada R-I-S-C-O
A fé no evangelismo de poder exige que se corra riscos. Wimber cunhou a frase “fé é soletrada R-I-S-C-O”. É preciso superar o medo de ser rejeitado ou de estar errado, valorizando o potencial de cura e alívio do sofrimento acima de manter a boa aparência e o respeito. O "como" (valores, humildade, dignidade, trabalho em equipe) é tão importante quanto o "o quê" (os dons).
LIDERANDO TEMPOS DE MINISTRAÇÃO
A Inovação de Wimber e a Prática da Espera
John Wimber foi um inovador ao mover a prática de esperar pela visitação do Espírito Santo, herdada da tradição Quaker, para grandes reuniões públicas. Ele conectou essa espera à proclamação do Reino de Deus e ao uso de equipes de ministração.
Após o culto e o ensino, Wimber anunciava o tempo de espera pelo Espírito Santo, orando "Venha o Teu reino" ou "Vem, Espírito Santo," e então ficava em silêncio e relaxado, intencionalmente incorporando a ausência de exagero. O Espírito Santo começava a "cair" sobre indivíduos, resultando em fenômenos como cair no chão, rir, chorar, tremer ou curar. Os líderes devem observar para ver o Espírito Santo nas pessoas e então abençoar o que Deus já está fazendo, caminhando atrás de Deus.
A Cultura da Ministração
É essencial nutrir intencionalmente uma cultura que facilite a ministração no poder do Espírito. Três aspectos chaves são:
1. O senso de família: Uma comunidade que permite a liberdade para responder a Deus, que ama e vive junta, e onde as pessoas não se sentem inseguras sobre responder abertamente.
2. O nível de expectativa: Ensinar sobre a disposição de Deus em se encontrar conosco e modelar essa expectativa, abrindo espaço intencionalmente.
3. A prioridade da adoração: Adorar a Deus cria um solo fértil para a manifestação do Espírito.
Os líderes devem desistir do controle, colocando o preparo em modo de espera se o Espírito Santo quiser intervir, pois Ele deve ser o líder supremo do culto. Para pastorear esses momentos, é crucial explicar, explicar, explicar. Deve-se tranquilizar aqueles que não sentem nada (pois isso é normal) e explicar que as reações físicas (choro, riso, tremor) são respostas humanas à atividade do Pai, e não manipulação.
O Modelo de 5 Passos da Ministração Vineyard
O movimento Vineyard enfatiza que “todos podem participar”, com base no chamado para equipar os santos para a obra ministerial (Efésios 4:12). John Wimber desenvolveu este método modelo para facilitar o treinamento de milhares de crentes no ministério de cura, resistindo à noção de que alguns são superestrelas espirituais. O guia de 5 passos não é uma fórmula científica, infalível ou mágica. É um modo intencional e relacional de orar, dependendo e ouvindo o Espírito Santo, que dita os parâmetros. Ele se baseia no método que Jesus usava ao ministrar aos doentes.
Passo 1: a entrevista
• Prática: Apresente-se e pergunte: “Como eu posso orar por você?” ou “Qual é a sua enfermidade?”.
• Foco: Ouvir em dois níveis: natural (o pedido) e sobrenatural (o que Deus está dizendo). Deve-se buscar conhecer a pessoa por detrás da doença.
Passo 2: o diagnóstico
• Prática: Pergunte: “Por que esta pessoa está nessa condição?”.
• Foco: Identificar a raiz do problema (que pode ser natural, pecado, feridas emocionais, problemas de relacionamento ou influência demoníaca). Levar dignidade à pessoa que escolheu a vulnerabilidade de pedir oração.
Passo 3: a escolha da oração
• Prática: Pergunte: “Que tipo de oração é necessário para ajudar essa pessoa?” e "Senhor, o que queres curar agora?”.
• Foco: Decidir se a oração será direcionada a Deus (súplica/intercessão, buscando concordar com a vontade de Deus) ou se serão palavras recebidas de Deus (comando, declaração de fé, repreensão de forças demoníacas).
Passo 4: engajamento na oração
• Prática: Prossiga com a oração, impondo as mãos sobre a pessoa (com consentimento e respeito). Comece com: “Vem Espírito Santo”. Mantenha os olhos abertos e observe os efeitos visíveis (calor, formigamento, tremor).
• Foco: Orar de acordo com o diagnóstico e a escolha de oração, sempre ouvindo o Espírito Santo e tratando a pessoa com dignidade.
Passo 5: orientação pós-oração
• Prática: Pergunte: “O que esta pessoa deve fazer para manter a cura?” ou “O que ela deve fazer se não for curada?”.
• Foco: Encorajar o crescimento contínuo através da intimidade com Deus, leitura da Bíblia e conexão ativa com a igreja local. Se houver cura, estimular a busca por comprovação médica e o registro do que Deus fez.
CONCLUSÃO
A demonstração do Reino de Deus através da cura, libertação e evangelismo de poder depende da nossa convicção na autoridade delegada de Jesus e na nossa identidade como Seus embaixadores. A base de um ministério sustentável está na vida de oração privada, seguindo o modelo de Jesus (o "santuário"). Seja na rua através de encontros divinos, ou em reuniões públicas, a prática de esperar no Espírito Santo e intencionalmente abrir espaço para a intervenção de Deus é fundamental. Devemos aprender a ser "naturalmente sobrenaturais," dispostos a soletrar a fé como R-I-S-C-O e a agir no que discernimos que o Pai já está fazendo (Ver, Ouvir, Fazer).
Perguntas para Aplicação Pessoal ou Discussão em Grupo:
Como você pode intencionalmente cultivar períodos de solidão e escuta a Deus para fortalecer sua autoridade e identidade em Cristo?
No Modelo de 5 Passos, como podemos garantir que não estamos confiando em nossa experiência limitada ou preconceitos, mas sim buscando o diagnóstico do Espírito Santo (Passo 2)?
A fé no evangelismo de poder é soletrada R-I-S-C-O. Qual é o maior risco que você é chamado a correr atualmente para se juntar ao que Deus já está fazendo?
O Novo Testamento apresenta a libertação por "crise" (confronto) e por "processo" (auto-libertação através da verdade). Qual abordagem parece ser mais relevante para as necessidades de sua comunidade hoje, e como a igreja pode equipar os crentes para se submeterem a Deus e resistirem ao diabo para manter sua liberdade?
Fonte: Demonstraing the Kingdom, Derek Morphew
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